Reflexão sobre a ideia de felicidade

Do oriente ao ocidente a felicidade sempre foi objeto de estudo. Na Grécia antiga, 2000 a.c, ainda com os pré-socráticos, o conceito de felicidade foi estudado e discutido.

 

Desde sempre e, ainda hoje, buscamos a felicidade "verdadeira". Essa busca ganhou muita força com o advento do cristianismo e, por isso, talvez, nós achamos que somente existe uma única maneira de sermos felizes. Mas nem sempre ao longo da história foi assim.

 

É preciso levar em conta que o conceito de felicidade ganha sentido diferente de acordo com tempo histórico. Houve momentos em que as pessoas felizes eram aquelas que nasciam com dons e talentos especiais e, claro, as colocavam em prática. Portanto, a força, aptidões físicas e estética eram motivos de glória:  quem as possuíam repousavam na certeza que eram dotados de atributos concedidos. Isso os diferenciavam dos demais, e por isso eram cultivados e admirados. Vale lembrar que o estereótipo grego, de homens fortes, atletas de corpos torneados é uma amostra desse conceito.

 

Após a tríade grega, Sócrates, Platão e Aristóteles, pontos centrais do desenvolvimento do pensamento ocidental, começa-se a se discutir um novo conceito de felicidade. Embora ainda contaminado com a ideia dos talentos inatos, a felicidade começa a ser construída por outro tipo de atributos. As qualidades físicas dividem espaço com a liberdade, democracia e conhecimento. Perceba que as imagens que representam Sócrates, Platão e Aristóteles já não se tratam aqui de homens musculosos, mas sempre com referência a posturas éticas e morais. A felicidade, portanto, tem mais relação com as virtudes do que com talentos. Um esboço de cristianismo já começa a ser criado, com algumas diferenças, claro.

 

O Judaísmo trouxe consigo a ideia de uma felicidade atrelada a acontecimentos, não pura e simplesmente a um estado de espírito. A felicidade verdadeira estaria atrelada ao momento em que haveria a libertação da escravidão, um lugar e tempo em que todos poderiam usufruir das benécias da promessa e, para isso, a esperança, o “por vir”. A felicidade seria “trazida” e entregue para quem é de direito, aos escolhidos, e sempre representada na figura Do Libertador.    

 

Não muito distante, o cristianismo segue as mesmas ideias, mas com algumas diferenças e ramificações. Para o cristianismo primitivo, o que depois deu subsídio ao desenvolvimento da teologia católica, a verdadeira felicidade não está apenas em amar a Deus e ao próximo, isso são meios e não fim. A felicidade estaria em um ideal de mundo, não aqui, ao qual não pertencemos. A felicidade seria conquistada e não dada, portanto o sacrifício e a renúncia são pontes de travessia à verdadeira e única felicidade.  

 

O mesmo cristianismo, na idade média, dá ainda mais peso a essa estrutura de pensamento, afinal, só há salvação na igreja; fora dela, dor e sofrimento. O sacrifico e renuncia ganham ainda mais sentido na esperança de um mundo melhor.

 

Uma cisão no pensamento cristão acontece após a reforma protestante, centrados na pessoa de Martin Lutero e João Calvino, Sec XVI. Agora o cristianismo passa a dar valor ao aqui e agora. Bem verdade que o mundo melhor seria o ideal de conquista, mas a ideia de sacrifício e renúncia perde força e dá lugar ao gozar da liberdade que já foi conquistada por Cristo. Claro que isso terá influência na conciliação do capitalismo e na ideia da prosperidade como benção e felicidade. (Max Weber, 1905).

 

Paralelo a isso, outras correntes filosóficas e religiosas contribuem com outros diferentes conceitos. As religiões orientais, por exemplo, que em geral acreditam na ideia do esvaziamento de si e busca do equilíbrio entre os instintos e virtudes. A felicidade está na perfeição que só pode ser alcançada com o autoconhecimento e controle dos impulsos.

 

Meados do Sec XVIII e XIV pensadores como Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud retomam o conceito de felicidade sem concepção do divino. A felicidade estaria no mérito de dar sentindo à existência e na luta constante de todas as pulsões que nos determinam. Para muitos, uma visão pessimista do ser humano.  

 

Para o existencialismo a felicidade se contrapõe a ideia platônica e judaico-cristã. A felicidade consiste em auto responsabilidade e no abondado do ideal (mundo melhor) em busca do real. A esperança, nesse sentido, seria a perpetuação do sofrimento, e não ao contrário.

 

No sec XXI a felicidade tem relação direta com o consumo, ou seja, não a ganhamos, não a conquistamos e muito menos a construímos: simplesmente a consumimos por meio de barganha; a aparência precede a essência.

 

No entanto, há algo de diferente na contemporaneidade, um elemento do qual se modula de forma drasticamente oposta comparada à incessante busca pela felicidade ao longo da história. A felicidade está no hedonismo irracional, sem filtro de reflexão, e principalmente na Extrospecção.  

 

Perguntas como: Como posso ser feliz? O que é felicidade? O que preciso ser para ser feliz? Deu espaço para: o que preciso ter para ser feliz?

 

Não é só isso...

 

A dúvida, elemento básico de todo questionamento, foi substituída pela resposta.

 

Não importa em que momento histórico estivemos, desde sempre, a reflexão e o questionamento trouxe ao homem possibilidade de olhar para si na busca de respostas e, mais do que isso, a reflexão trouxe o autoconhecimento e capacidade de se situar no mundo enquanto autores. Ao que vemos, pelo menos numa forma mais superficial e menos abrangente, a contemporaneidade não se interessa por tais movimentos, primeiro por que isso demanda tempo, e não o temos, queremos e precisamos de velocidade; segundo porque compramos o que nos deixa feliz na prateleira; por último, não menos importante, a virtualização do real, dando lugar, como consequência, a aparência em substituição covarde da essência.

 

Isso talvez explicaria porque nunca sofremos tanto em todo a história?

 

Onde estaria o “erro”? Na concepção errada de felicidade ou na falta de compromisso com a pergunta: o que é felicidade?

 

Pensemos...

 


Deixe seu Comentário

Receba novidades

Cadastre-se e receba dicas e novidades gratuitamente

Escolha outros assuntos

Veja também